Conheci a história de Eliana Zagui a pouco tempo. São pessoas como ela que nos faz esquecer de tantas injustiças, maldades, corrupção e tantos atos que matam a nossa sociedade. Através dela podemos ter esperança de mudar uma realidade não tão justa. Porque é por meio de Eliana Zagui que podemos olhar a vida sob uma nova perspectiva e assim, nos tornarmos seres humanos mais perseverantes.
Sinopse
Eliana chegou ao Hospital das Clínicas de São Paulo aos
dois anos de idade, em 1976, com poliomielite, paralisada do pescoço aos
pés e quase incapaz de respirar. Foi colocada no pulmão de aço, máquina
usada para recuperar o aparelho respiratório, mas não apresentou
evolução significativa. Os médicos avisaram aos pais da menina que ela
teria pouco tempo de vida. Eliana ainda vive no hospital. Em 'Pulmão de
Aço' ela conta como fez para sobreviver aos prognósticos e se tornar uma
artista que pinta quadros com a boca.
Internada há 36 anos em UTI lança livro de memórias escrito com a boca
Faz 36 anos que Eliana Zagui vive
deitada num leito de UTI do Instituto de Ortopedia do Hospital das Clínicas de
São Paulo. Vítima de paralisia infantil aos dois anos, ela perdeu os movimentos
do pescoço para baixo. Respira com ajuda de equipamentos.
Na cama, a menina se formou no
ensino médio, aprendeu inglês, italiano, fez curso de história da arte e
tornou-se pintora. Tudo isso usando a boca para escrever, pintar e digitar.
Hoje, lança (só para convidados) seu primeiro livro: "Pulmão
de Aço - uma vida no maior hospital do Brasil" (Belaletra
Editora).
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Eliana Zagui,38, é vítima de paralisia infantil e desde de um ano e meio mora no Hospital das Clinicas |
"Quando
nasce um filho, a mulher deve despir-se de antigos papéis", diz leitora. Pulmão de aço é o nome de uma
máquina, inventada na década de 1920, parecida com um forno. As pessoas com
insuficiência respiratória eram colocadas dentro dela, com a cabeça de fora.
Eliana ficou cinco dias lá
dentro, mas não funcionou. A pólio havia paralisado completamente o diafragma e
a deglutição. Ela teve, então, que ser conectada para sempre a um respirador
artificial. Só consegue ficar poucas horas longe do aparelho.
Entre 1955 e o final da década de
70, 5.789 crianças vítimas da pólio foram internadas no HC. Sete delas,
atingidas com mais severidade, ficavam lado a lado na UTI. "Nós nos
apegávamos um ao outro, como numa grande família. Era a única maneira de
suportar aquilo tudo", lembra Eliana.
Da turminha, só sobreviveram ela
e Paulo Machado, 43, que divide o quarto com a amiga e cuja história de vida
também aparece no livro. "A Eliana é minha irmã, a minha família. Tem
temperamento forte. Quando vejo que ela está brava, coloco os fones de ouvido e
fico na minha", diz.
Eles poderiam viver com suas
famílias, com o apoio do hospital. Mas nunca houve interesse por parte delas.
Os parentes raramente os visitam. "Não me magoo mais. Já sofri muito e
hoje aprendi que cada um é cada um."
Eliana e Paulo passam a maior
parte do tempo na internet. Ela gosta de sites de relacionamentos, de pintura e
artesanato. Paulo é aficionado por cinema. Está envolvido na produção de uma
animação cuja protagonista é Teca, o apelido carinhoso pelo qual chama Eliana.
E, para ela, o amigo é o Teco.
Quando é necessário, ele faz as
vezes de irmão mais velho. "Dias atrás, eu me irritei no Face [Facebook] e
postei uma mensagem malcriada. O Paulo viu e me chamou a atenção", conta
Eliana, que chegou a ter 3.000 amigos virtuais. "Fiz uma limpa no final do
ano e só deixei uns cem. Agora tenho uns 300, mas preciso limpar de novo."
A saudade dos amigos reais, os
quais viu morrer um a um, é o que mais a entristece. "Foram momentos tão
bons. Mas não voltam mais."
No livro, ela relata que flertou
com o suicídio. "Avaliava as possibilidades: arrancar a cânula da traqueia
com a boca, cortar ou furar o pescoço." E encerra com humor.
"Descobrimos que até para morrer antes da hora precisamos da ajuda de
alguém." Eliana diz que, volta e meia,
essas ideias ainda a visitam, mas que hoje tenta aliviar suas angústias nas
sessões semanais de análise.
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Eliana Zagui, que desde os dois anos vive em hospital, escreve em seu livro dedicatória |
Pergunto se sonha em viver na
casa dos pais. "Não. Eu iria estagnar", responde convicta. Mas, sim,
ela sonha em morar fora do hospital. Em dezembro último, pela primeira
vez em 36 anos, passou o Natal fora do HC, na casa de amigos. Foi de maca e com
respirador artificial portátil. "Foi uma experiência ótima,
indescritível."
Quanto ao livro, Eliana diz
esperar que ele ajude "aqueles que não querem nada com a vida".
"É claro que cada um tem as suas dores. A minha desgraça não é maior que a
sua nem a sua é maior que a minha. Mas é sempre bom poder aprender a tirar o
que vale a pena da vida."(CLÁUDIA COLLUCCI)/ Crédito foto: Marisa Cauduro/Folhapress
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